À procura do sonho luxemburguês

Como a maioria dos leitores já deve ter ouvido, o Luxemburgo é um verdadeiro “Eldorado” para a grande comunidade portuguesa que sempre ouviu dos seus familiares lá emigrados como são bons os ordenados, que as condições governamentais, sejam elas familiares, de reforma ou de saúde são incontestáveis… só que o que ninguém evoca é o clima peculiar desse país minúsculo que largamente supera as temperaturas transmontanas a que estava habituada. Pois, desse detalhe não estava eu à espera quando há cinco anos decidi emigrar para estas terras gélidas, às quais ainda hoje me custa acostumar…
Mas para além dessa dificuldade secundária, a verdade é que ainda cá estou, realizada e feliz (apesar das saudades constantes dos meus pais), com uma família e um lar “construído”.
Uma aventura que começou quando eu e o meu atual marido, esgotamos todas as nossas hipóteses de carreira profissional num país que não nos viu nascer, pois ambos somos filhos de emigrantes, mas, que nos viu crescer e florescer. Onde tivemos a sorte de concluir um curso superior, onde batalhámos para poder criar um futuro concreto que sempre imaginámos mas que por algum motivo, alguma falha (até me pergunto se foi do sistema ou mesmo nossa), não permitiu que o realizássemos. Pelo menos na nossa zona de conforto, junto dos nossos.
Assim só houve uma solução, que já começava a estar na moda na altura, era partir. Partir sem saber precisamente para onde, mas partir para pelo menos tentar. Tentar trazer o que os nossos pais um dia trouxeram quando decidiram voltar connosco para Portugal, ou então simplesmente ter oportunidade de aproveitar a vida podendo realizar o nosso sonho de poder conhecer o mundo e viajar.
Estava então tudo decidido, só faltava escolher o destino. Vendo as duas possibilidades óbvias que se abriam a nós, França ou Luxemburgo, a decisão foi rápida. Excluímos o país onde nasci e onde residem grande parte dos meus familiares, pela simples razão de não me conseguir projetar num sítio em que certamente já não me encaixava passado estes 15 anos, e penso que também por sempre ter sido um país que deixou um gosto amargo à minha mãe.
A hipótese seria a mais óbvia, o meu marido nasceu e viveu lá, e a descrição que me tinham feito correspondia-me perfeitamente.
“É um mini Portugal”,
“Há portugueses por todo o lado”
“Tem muita verdura e natureza”
“A falar francês perfeitamente consegue-se um bom trabalho de certeza”
“O ordenado mínimo é de 1800€”
Ouvia eu dizer…Ok então bora lá!
O mais assustador vinha a seguir…a despedida. Uma das mais dolorosas que alguma vez tive. Abandonar o confortável lar, os meus queridos animais de estimação e obviamente os meus pais. Ainda hoje não consigo recordar esse momento sem sentir um aperto angustiante que nunca pensei que conseguisse superar.
No meio de toda essa mágoa e tristeza, aprendi que o ser humano é capaz de achar forças nos momentos de maior dificuldade e ainda descobre maneira de aprender uma lição nova e continuar a crescer.
 A chegada não foi fácil, juntando a separação com a descoberta do desconhecido, admito que foi um período bastante complicado onde me senti desorientada… Felizmente vim acompanhada tivemos o apoio duns familiares que nos acolheram e nos ajudaram, e conseguimos apoiar-nos um ao outro durante as várias etapas que nos estiveram reservadas.
A nossa prioridade antes de qualquer ilusão de emprego perfeito, foi o “desenrasca” para a regularização do nosso estado no país – ou seja, arranjar um contrato de trabalho rapidamente para poder registar-se na comuna (câmara) e estar legal. Foi o que fizemos, antes de qualquer tentativa de traduzir os diplomas e pedir a equivalência do curso, fui levada pelo cliché da mulher de limpeza portuguesa no Luxemburgo. Só para constar, no primeiro dia de procura de emprego já estava eu de contrato assinado e com farda pronta para começar no turno da noite (18h00-22h00). O meu ambiente não foi muito perturbado, pois as minhas colegas de trabalho eram praticamente todas portuguesas, o que não foi nada semelhante ao ambiente encontrado nos serviços administrativos. Devido ao facto de ter nascido na França e falar perfeitamente francês, quando me dirigia a um luxemburguês em qualquer serviço que fosse, parecia que trazia o rótulo de francesa na testa e fui percebendo que o fastio sentido para com a comunidade francófona era real. Por um lado até os percebo, todos os dias são 163 912 fronteiriços que entram no país para trabalhar, e desse total nem um quinto fala ou percebe a língua principal do país, a língua pela qual a comunidade luxemburguesa tanto luta por implementar como única língua oficial (sim porque existem 3 línguas oficiais no Luxemburgo – Luxemburguês, Francês e Alemão), apesar da língua portuguesa ser também uma das mais faladas…
Isto tudo até poderia soar como um ponto negativo mas não o é, pois a rapidez e eficácia prestada pelos serviços, comparavelmente a Portugal ainda hoje me surpreende. Praticamente tudo é feito controladamente sem complicações e sem esperas desnecessárias.
Depois de dois anos em part-time nas limpezas enquanto o meu marido percorreu três empregos diferentes, numa creche, num supermercado e na empresa lusa Delta, onde não lhe foi dado o mérito merecido e em que o método de trabalho era no fundo questionável em vários pontos… a sorte finalmente parece nos ter sorrido. Hoje após estes anos em que tinha perdido a esperança de fazer valorizar o curso que os meus pais tanto se esforçaram para pagar em Portugal, acredito que afinal tudo valeu a pena.
Trabalhar na nossa área e saber que alguém aqui tão longe e tão desconhecido nos deu a oportunidade de exercer aquilo que nos foi ensinado e de criarmos a nossa experiência, faz-me ver que apesar do caminho ter sido duro, e penso eu que por vezes sempre continuará a ser, uma coisa é certa, é que alcancei aquilo pelo que viemos à procura.

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