Comemorações do 10 de Junho. Visita à comunidade no Reino Unido é “oportuna” perante “impacto emocional” do Brexit

Foto: Paulohabreuf/ Pixabay

A escolha da comunidade portuguesa do Reino Unido para comemorar o Dia de Portugal, esta sexta-feira, é “oportuna” tendo em conta o “impacto emocional” e prático do Brexit, afirmou a cônsul-geral em Londres, Cristina Pucarinho.

“Parece-me particularmente oportuno porque esta é a segunda maior comunidade portuguesa num país europeu (a seguir a França) e porque acontece depois de uma consumação verdadeira do Brexit”, realçou a diplomata, em serviço no país desde 2018.

O processo de saída do Reino Unido da União Europeia (UE), vincou, teve “um impacto não só emocional e psicológico sobre a comunidade, mas com exigências concretas que os portugueses tiveram de cumprir”.

Nos últimos anos, os consulados de Portugal passaram a ser um ponto essencial de contacto e apoio da diáspora, estimada em mais de 400 mil pessoas.

O referendo que ditou o Brexit, em 2016, desencadeou uma corrida “sem precedentes” a documentos de identificação, essenciais para obter o direito de residência e inscrição no Sistema de Registo de cidadãos da União Europeia [EU Settlement Scheme, EUSS].

O Consulado-geral de Londres passou a ser o que mais emite passaportes em todo o mundo e o segundo, a seguir a Paris, em número de Cartões do Cidadão.

Os postos passaram também a ser pontos de contato para informações sobre o estatuto de residência no Reino Unido e desdobraram-se em sessões de informação junto da comunidade portuguesa, incluindo aqueles de origem timorense e indiana, com tradução nos dialetos tradicionais tétum, concani e guzerate.

Apesar de o EUSS ter oficialmente fechado em 31 de junho de 2021, o Ministério do Interior britânico continua a aceitar candidaturas de pessoas vulneráveis que não conseguiram completar o processo a tempo.

Os consulados são frequentemente chamados a ajudar em casos de indocumentados, indigentes, pessoas em situação de sem-abrigo, menores ao cuidado de serviços sociais.

“O Brexit resultou numa exigência adicional de esforço de informação, de apoio direto a cidadãos. Tenderá progressivamente a diminuir, mas nesta fase ainda se justifica pelo número de casos que continuamos a detetar”, contou Pucarinho.

Este acréscimo de solicitações, junto com as restrições de funcionamento durante a pandemia de covid-19, resultou no congestionamento do atendimento dos consulados, com tempos de espera por marcações que ultrapassam seis meses e dificuldades de contacto por telefone e correio eletrónico.

Esta situação é frequentemente levantada pela comunidade e motivo de protestos junto das autoridades portuguesas.

“As críticas são justificadas e reconheço que existe uma evidente margem para melhoria na prestação dos nossos serviços, mas também há muitas críticas que são desprovidas de fundamento. Houve muitas melhorias ao longo dos dois últimos dos últimos anos”, argumentou a diplomata.

A passagem do Reino Unido a um país terceiro da União Europeia implicou também uma adaptação dos consulados, que passaram a ser bastante requisitados para emitir vistos de viagem a britânicos que vão viver, trabalhar ou estudar em Portugal.

Recentemente, o posto de Londres iniciou um projeto piloto na área da segurança social para prestar informação sobre as condições de regresso a Portugal, nomeadamente em termos de direitos de pensões de aposentação para aqueles que fizeram contribuições no país de origem.

“Percebemos que existe a intenção de preparação do regresso a Portugal em algum momento adiante nas suas vidas”, indica a cônsul.

Sobre o aumento do fluxo de emigrantes que estão a voltar a Portugal, que empresários e dirigentes associativos indicaram à Lusa estar a acontecer, a cônsul confirma estar a emitir “centenas” de certificados de bagagem “por mês”.

Este tipo de documentação passou a ser exigido deste a saída do Reino Unido da UE para efeitos de isenção fiscal na importação dos bens, no caso de mobílias, equipamento eletrónico e outros pertences que os emigrantes estão a transportar para Portugal.

“Há algum fluxo de regresso a Portugal (…) mas pensando na dimensão da nossa comunidade, não é um fenómeno muito significativo”, garantiu.

Brexit e aumento de custo de vida deixa portugueses no limbo

O Brexit, a pandemia e a crise económica deixaram a comunidade portuguesa no limbo entre ficar no Reino Unido e regressar a Portugal, dizem dirigentes associativos e empresários na véspera da visita do Presidente da República a Londres.

“Nunca me senti imigrante, achei que era tratado como igual. Mas depois do Brexit já me sinto estrangeiro”, confessou à agência Lusa o empresário e Conselheiro das Comunidades Madeirenses José Silva.

No Reino Unido há 40 anos, subiu a pulso e construiu um grupo económico com restaurantes e a importação de produtos alimentares portugueses.

Durante este tempo, viu o tipo de emigração portuguesa mudar, de pessoas menos qualificadas e com poucos conhecimentos da língua inglesa que se ficavam pelas limpezas, construção civil e restauração, para profissionais como médicos, engenheiros e arquitetos.

Depois do referendo de 2016, quando os britânicos votaram a saída da União Europeia (UE), o ambiente mudou.

“Não me tratam de maneira diferente, dizem ‘tu és um bom estrangeiro’. Mas no fim do dia somos todos imigrantes”, lamentou, desiludido.

Em Cardiff, o empresário Nuno Silva diz que milhares de portugueses deixaram nos últimos seis anos o País de Gales, país onde tinham chegado recrutados em grupo por agências para trabalhar em fábricas.

Alguns, explica, regressaram a Portugal porque não conseguiram o estatuto de residente, outros nem tentaram, desiludidos.

“Eu também quero ir daqui a uns dois anos. Desde o Brexit que nunca mais me senti à vontade”, revelou à Lusa.

Ana Silva, presidente da Associação Portuguesa de Watford, nos arredores de Londres, relata que muitas famílias continuam a regressar a Portugal, não só por causa do Brexit, mas também, mais recentemente, devido ao impacto da pandemia e da crise económica.

“Em 2016 ninguém pensava voltar a Portugal”, recordou, “mas depois as pessoas começaram a pensar”, acrescentando à lista de queixas as dificuldades de viajar causadas pela pandemia e o aumento de custo de vida.

Numa altura em que o aumento da inflação já está a ter impacto nos orçamentos familiares, a solução para reduzir as despesas tem sido a separação de famílias.

“Algumas esposas estão a voltar a Portugal com os filhos para ver se se adaptam, e, se gostarem, ficam. Os maridos, ou ficam cá e passam a ir lá mais de férias, ou vão de vez”, revela a organizadora de eventos.

Segundo José Manuel Sousa, dirigente do Grupo Desportivo Cultural, muitos emigrantes optam por ficar porque não querem deixar para trás filhos ou netos, a casa e uma vida construída ao longo de décadas.

Este cozinheiro de profissão vê algumas semelhanças entre a época em que chegou, em 1989, e o pós-Brexit: muita oferta de emprego, comprovada pela taxa de desemprego de 3,7%, o nível mais baixo desde 1974.

“Temos muitos trabalhos, mas não há pessoal. Tenho muitas pessoas da Madeira a pedirem-me para vir, mas com o Brexit é mais difícil contratar estrangeiros”, exclama.

Domingos Cabeças, gerente da agência de recrutamento Netos em Londres, também nota a redução de portugueses à procura de emprego numa altura em que mais precisa.

“Antes do Brexit tinha 60-80 pessoas por dia, agora a média é de 10-15. Tenho empregadores que telefonam todos os dias a saber se há gente. Aumentaram salários e mesmo assim não há gente”, conta.

No Reino Unido há 31 anos, Cabeças explica que os salários elevados, em alguns casos quatro vezes superiores aos praticados em Portugal, atraíram muitos emigrantes, que chegavam a acumular vários empregos para juntar economias.

Porém, além de despesas mais altas com alojamento e transportes, agravadas pelo aumento do custo de vida, a mentalidade da comunidade portuguesa mudou, para pessoas que querem aproveitar melhor a vida, acabando por voltar a Portugal.

“As pessoas já não querem ser escravas do dinheiro, vão comer fora, passear ao fim de semana. Chega a um ponto em já não vale a pena cá estarem, não conseguem juntar dinheiro. Em Portugal não ganham o mesmo, mas ao menos estão no país deles”, resume.

Marcelo Rebelo de Sousa, vai estar na capital britânica entre hoje e e amanhã, juntamente com membros do Governo.

Esta sexta-feira (10), a Revista Comunidades fará, em parceria com o jornal As Notícias (UK), transmissão em live streaming da receção à comunidade portuguesa em Londres, no InterContinental Park Lane Hotel, um evento com início marcado para as 18h30, e que poderá ser acompanhado através do site e rede social de Facebook da Revista Comunidades. Consulte o programa aqui.

 

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