Emigrante português em França mantém viva a tradição da porcelana de Arras

Trata-se de um dos últimos decoradores de porcelana artesanal da cidade francesa de Arras. O franco-português fala da sua paixão com entusiasmo ao Le Journal des Flandres.

Victor Sousa foi decorador de porcelana toda a sua vida. Depois de frequentar uma escola de desenho em Portugal e entrar numa fábrica de porcelana, Victor Sousa deixou o seu país para se instalar em Arras.

Foi nesse período que se juntou à Porcelana Caudron. Um “casamento” que durou 35 anos. Mas quando o negócio fechou, Victor Sousa não desfez os laços com a decoração em porcelana e continuou a praticá-la em casa.

Aposentado há mais de dez anos, o decorador ainda passa parte do seu tempo a pintar em porcelana. A sua atividade agora transformou-se num passatempo. Uma verdadeira paixão. Instalado em sua casa, num escritório mobiliado, Victor Sousa ainda maneja pincéis finos como uma agulha. Sobre a sua mesa estão dispostas todas as ferramentas necessárias para desenvolver a sua arte.

Atualmente com 67 anos, confessa que dedica grande parte do seu tempo às suas decorações, num trabalho tão meticuloso, quanto técnico. De acordo com a ornamentação do seu apartamento, Victor Sousa passa horas e horas a escovar porcelanas, num espaço onde dezenas de xícaras e inúmeros pratos decorados se amontoam. O emigrante português acumula objetos de porcelana decorados, sempre inspirados em novos padrões. Onde ele encontra todas essas peças de porcelana? «Não encontramos muita porcelana boa por aqui». Frequentemente tem que se ir buscá-la em Limoges». Contudo, Victor Sousa não precisa de se deslocar a esta “cidade vermelha” que tanto adora branco. O apartamento dela está cheio de louças prontas para serem decoradas.

Assim que tem tempo, o franco-português debruça-se sobre uma nova decoração. E na reforma, ele tem tempo. «Durante o confinamento, eu fiz exatamente isso: pintei pequenas maravilhas», afirma, entusiasmado. Nesse momento, o decorador, de bigode escovado, está debruçado sobre uma travessa de sobremesa. A pintura revela a captura da cidade de Arras pelos franceses, a 10 de agosto de 1640.

O profissional de pintura em porcelana

Decorar porcelanas «é simples», diz Victor Sousa. Primeiro, é preciso misturar o azul-cobalto com um pouco de terebintina e um pouco de graxa. A textura não deve ser nem muito líquida, nem muito sólida. Uma dosagem que Victor Sousa domina, como um chef conceituado. De seguida, traça os padrões, fazendo pequenos orifícios na lixa, antes de esfregar a folha com pó de carvão. «E, então, chega a hora do divertimento», diz ele, com uma voz animada. Uma tarefa – a da pintura – tão simples, que leva quase vinte horas para ser executada…

Pode, de facto, ser simples para quem cresceu na decoração de porcelana. Victor Sousa está na pintura desde a adolescência. Em Portugal, aos 14 anos ingressou numa das maiores fábricas de porcelana da Europa, como pintor, na Vista Alegre, em Ílhavo. Em 1975, Henri Caudron pretendia atualizar a fábrica de porcelana de Arras, muito apreciada na década de 1770. Por falta de mão-de-obra especializada, trouxe de Portugal pintores de porcelana para relançar a produção, inspirada na Porcelana de Limoges. E foi nesse período que chamou Victor Sousa. O português deixa assim a sua terra natal para ir atrás da sua paixão. Inicialmente, o decorador português não conseguia imaginar-se a viver em França. Finalmente, ele se apaixona por uma francesa, Brigitte. Desde então nunca mais deixou Arras e as suas porcelanas. Victor Sousa pintou porcelana de Arras durante 35 anos na Caudron. Ele também gosta de se deixar levar pela sua imaginação. Sempre que surge uma oportunidade, Victor Sousa faz uma nova porcelana.

Uma paixão que se transmite

Aos netos ofereceu bolas de porcelana para colocar na árvore de Natal. Em casa, Victor Sousa dá continuidade à tradição da porcelana de Arras. «Enquanto estiver a divertir-me, não vou parar», conclui. E, quem sabe, talvez um dia este entusiasta da decoração da porcelana venha a transmitir o seu know-how. Na verdade, uma das suas netas interessa-se muito pelo hobby do avô e dedica-se à pintura de porcelana, quando vem visitá-lo. Entre os Sousa, a porcelana é uma tradição. Embora Victor seja o único, por enquanto, que sabe manusear pincéis, toda a família aprecia seus trabalhos em porcelana.

Os portugueses dominam a pintura em porcelana

Porque é que a fábrica da Caudron empregava portugueses? Em 1975, Henri Caudron contratou quatro portugueses para abrir a sua oficina de porcelana. Segundo Victor Sousa, as formações de decoração em porcelana são muito difundidas em Portugal. Na França, esse know-how limita-se principalmente a Limoges. Já Victor Sousa é um dos últimos portugueses em Arras a pintar em porcelana. «Quando a Caudron fechou, os meus colegas regressaram a Portugal», explica. O decorador nota que a tendência para aquisição de porcelana também está a perder força em Portugal. «Era uma moda, muita gente comprava conjuntos de mesa. Mas isso já não acontece», lamenta o artesão.

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