EUA: Eduardo Pires, um português no Pentágono

EUA: Eduardo Pires, um português no Pentágono

Eduardo Pires nasceu nos Açores e, hoje, trabalha diretamente para o Secretário de Defesa norte-americano, na área de Inteligência. Integrou missões em busca de Bin Laden e de outros terroristas no Médio Oriente e agora é nos corredores do Pentágono que passa os dias.

Nasceu nos Açores, mas cedo fez a travessia transatlântica. Eduardo Pires cresceu nos Estados Unidos, mas mantém o ‘cordão umbilical’ ligado à ilha que o viu nascer, a Terceira. Apesar de o inglês ser o idioma que usa diariamente, não se esqueceu que “saudade” é a palavra que define a falta que sente do arquipélago e das suas gentes.

A desempenhar funções na inteligência norte-americana, Eduardo não pode falar de Donald Trump. As presidenciais nos Estados Unidos são outro dos temas ‘tabu’ na entrevista que deu ao Notícias ao Minuto.

Já integrou missões em busca de Bin Laden e de outros terroristas no Médio Oriente, mas hoje passa os dias na sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, o Pentágono.

Este edifício colossal é, como o próprio define, “o maior prédio de escritórios do mundo, com o seu próprio shopping center, hospital e academia. É como uma pequena cidade. É imenso”. E as cerca de 25 mil pessoas que lá trabalham “estão focadas em apoiar o Departamento de Defesa e garantir que os militares estejam prontos para defender a nação”.

Enquanto oficial militar com a patente de Tenente Coronel FGO – Field-Grand Officer, este açoriano trabalha diretamente para o Secretário de Defesa norte-americano, na área de Inteligência. “Trabalho com o Congresso, a Casa Branca e os quartéis-generais dos vários serviços militares e agências de defesa. Basicamente, analiso como os militares americanos podem identificar melhor as ameaças aos EUA e como os seus aliados e parceiros podem apoiar as operações em todo o mundo”.

“Os dias podem ser longos”, confessa. Mas é a exigência e o carácter desafiante da profissão que fazem com que este emigrante considere “gratificante” trabalhar no centro de decisões da Defesa americana.

Licenciado em História pela Universidade de Massachusetts, em Dartmouth, Eduardo fez também um mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Troy, no estado do Alabama, e um mestrado em Estratégia Nacional de Recursos pela Escola de Eisenhower, na Universidade de Defesa Nacional em Washington, D.C.

Pese embora inicialmente tivesse intenção de ser professor de História, Eduardo começou a manifestar interesse no “serviço governamental”, nomeadamente pela forma como o executivo “lida com a história e a política na resolução de problemas difíceis”. Decidiu, por isso, dar os primeiros passos no serviço militar, que “seria um bom ponto de entrada para enfim chegar ao que queria”.

Depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, contribuí em diversas tarefas na busca por Bin Laden e outros terroristas no Médio Oriente

O açoriano começou então por integrar a Força Aérea e já cumpriu diversas missões na Europa, na Ásia e no Médio Oriente. “Quando iniciei a minha carreira, estávamos a apoiar missões da NATO no Kosovo através na nossa base na Califórnia. Depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, contribuí em diversas tarefas na busca por Bin Laden e outros terroristas no Médio Oriente. Fiz também parte de várias outras missões destinadas a manter a paz na Coreia do Sul e na Alemanha”, recorda.

Já na atualidade, as “modernas comunicações de satélite” permitem que sejam levadas “a cabo missões para todo o mundo através das nossas bases militares nos EUA”, esclarece.

Eduardo Pires nasceu na freguesia de Santa Bárbara, na ilha Terceira, e com apenas um ano, em 1973, rumou para os Estados Unidos com os pais. A família, que se sentiu motivada a deixar Portugal devido à fragilidade da economia dos Açores, instalou-se em New Bedford, no estado de Massachusetts. “A economia não era das melhores naquela altura, por isso os meus pais partiram à procura de oportunidades de emprego. Algumas das minhas tias e tios tinham mudado antes para Massachusetts e ajudaram-nos”, lembra.

Apesar da distância, Eduardo visita “com alguma frequência os Açores”, o que lhe permite manter viva a ligação ao arquipélago. Além disso, o emigrante mantém também um contacto regular com os parentes que ainda residem nas ilhas, o que ajuda a acalmar a “saudade” que sente dos Açores.

Considerando que os Estados Unidos são um dos países mais fustigados pela pandemia de Covid-19, Eduardo Pires acredita que os próximos meses serão determinantes para que o país “comece a recuperar”.

Os próximos tempos devem, no seu entendimento, também ser encarados pelo “governo e pela comunidade médica” como uma oportunidade para analisar tudo que se aprendeu sobre o vírus até então, delineando “uma melhor resposta a futuras pandemias. Estou ansioso pelas lições que podemos aprender com essa análise e com as ações de outros países, como Portugal, que tiveram sucesso contra a Covid-19”.

Já questionado quanto à forma como o presidente norte-americano tem liderado a luta contra a pandemia de SARS-CoV-2, atendendo ao facto de que tem sido apontado como um negacionista, Eduardo Pires defende que não pode comentar temas relacionados com Donald Trump, já que, “na esfera pública, os militares devem permanecer apolíticos para manter o adequado relacionamento civil-militar”.

Não podendo manifestar-se publicamente sobre a ação do presidente, Eduardo Pires, tem, assim como os restantes americanos, “a oportunidade de expressar a opinião através do processo democrático das eleições presidenciais”.

Com a proximidade das presidenciais nos EUA, que serão realizadas esta terça-feira, dia 3 de novembro, o país vive uma “atmosfera muito carregada politicamente”, não só pela importância do próprio sufrágio, mas também pela “pandemia e pelos seus efeitos na economia”. Porém, este cenário permitirá, aos olhos do português, “aumentar bastante o nível de participação eleitoral”.

A NATO tem sido uma das alianças mais fortes e importantes da história moderna, desde o confronto com a União Soviética à resposta à ameaça do terrorismo

A possível reeleição de Donald Trump poderá ter como consequência a saída dos EUA da NATO, como indicam vários especialistas. Eduardo não concorda com esta tese, defendendo que “seria prematuro assumir uma saída dos EUA”, considerando “a força dos laços transatlânticos e o apoio dos governos da América do Norte e da Europa. A NATO tem sido uma das alianças mais fortes e importantes da história moderna, desde o confronto com a União Soviética à resposta à ameaça do terrorismo”. A realidade é que a Rússia e a União Soviética usam esses meios [de manipulação do sentido de voto] há décadas

Ainda no domínio eleitoral, a Rússia propôs aos EUA a celebração de um acordo entre os dois países para garantir que nenhum deles interfere nas eleições do outro por meios eletrónicos. Questionado sobre se este pacto irá pôr fim à manipulação do sentido de voto dos eleitores, o açoriano mostra-se “cético em relação à proposta russa”.

“A realidade é que a Rússia e a União Soviética usam esses meios há décadas. A diferença, hoje, é que esses países sao mais sofisticados na divulgação da sua mensagem através das redes sociais e outros métodos cibernéticos. Dado o sucesso que os russos tiveram, não os vejo a abandonar essas estratégias”.

O objetivo da China é ser uma superpotência económica e global até 2049, o aniversário da fundação da sua nação

Os últimos anos têm sido marcados por uma deterioração da relação entre a China e os Estados Unidos, marcada por várias disputas simultâneas entre estas duas maiores economias do mundo. Eduardo Pires vê “a China como um concorrente estratégico e uma potência crescente que, de certa forma, está a ameaçar os EUA, os seus aliados e os seus parceiros na sua governabilidade, no comércio livre e na estabilidade regional”.

O objetivo público declarado da China, sustenta ainda, “é ser uma superpotência económica e global até 2049, o aniversário da fundação da sua nação. E o país está a usar vários meios para atingir esse objetivo, incluindo roubo de propriedade intelectual e outras práticas comerciais desleais”.

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