O egoísmo nacional em tempos de pandemia

Paulo Pisco

O Comissário Europeu da Economia, Paolo Gentillone, disse em 13 de março passado que o setor do turismo poderia chegar a ter uma atividade a rondar os 40 por cento e que queria evitar a todo o custo que se produzisse um tratamento discriminatório entre Estados-membros no que respeita à abertura de fronteiras. Como se pode facilmente ver, o otimismo do comissário Gentillone não resistiu à realidade e falhou nas previsões. A crise é mais profunda do que se esperava e cada Estado-membro agiu de forma egoísta, como se não pertencesse a uma das mais importantes organizações multilaterais do mundo, a União Europeia.

Na realidade, a crise é profunda e os Estados-membros da União Europeia estão desorientados e muito preocupados com as consequências económicas e sociais provocadas pela pandemia. Com efeito, a pandemia também tem sido pretexto para a afirmação individual de alguns Estados-membros, como forma de demonstrar a sua diferença relativamente a outros, tenham eles sido melhor ou pior sucedidos no controlo da pandemia.

E assim, ao contrário da vontade legítima e coerente com o espírito da União Europeia, vários Estados-membros desataram a criar regras e critérios próprios arbitrários, para excluir uns países e aceitar outros, o que gerou discriminações, confusão e indecisão nos cidadãos que queriam passar férias noutro país, afetando muito particularmente milhares de compatriotas. Por mais manhas e truques que se empreguem, o turismo que houver este verão está muito longe de ser o que era nos tempos pré-pandemia.

Este foi, por isso, um momento em que os Estados-membros da União Europeia não se ouviram uns aos outros. Esperemos que, pelo menos, isto sirva de alguma lição para o futuro. Optaram por definir e impor critérios sem sequer ouvirem os países ou olharem com rigor e isenção para a situação epidemiológica dos países a quem colaram o anátema da rejeição.

Isso levou a que, por exemplo, o Reino Unido adotasse a posição mais absurda e incoerente relativamente à abertura dos corredores aéreos com países seguros. Portugal é um país que se pode considerar seguro e apesar de alguns casos na periferia de Lisboa, muito localizados e fruto de muita testagem, de uma maneira geral, a situação não é menos alarmante do que em qualquer outro país da União Europeia e do mundo. Para quem se desloca, só é necessário ter cuidado e respeitar as regras de higiene e distanciamento social, como em qualquer outra parte do mundo.

Não faz qualquer sentido que todo o país seja penalizado só porque em algumas freguesias de concelhos periféricos da área metropolitana de Lisboa surgiram surtos que estão circunscritos. O Norte do país, mas sobretudo o Algarve, os Açores e a Madeira, praticamente não têm casos ativos. Porque razão então o Reino Unido optou por desferir uma machadada violenta no seu “mais antigo aliado”, como se costuma dizer?

Interessa ainda combater o verdadeiro flagelo da desinformação, das notícias falsas e da perceção errada que frequentemente existe nas nossas comunidades sobre a situação em portugal

Por que razão é imposta aos turistas para os Açores e a Madeira a obrigatoriedade de quarentena, onde quase não existem casos ativos de covid-19?

Se calhar nem vale a pena continuar a invocar esta condição do mais antigo aliado, sobretudo se no governo inglês estiver um grupo de políticos sem sentido da história e da solidariedade, uns extremistas que querem a todo o custo cortar amarras com a União Europeia. Não é de todo de descartar a possibilidade de a decisão britânica ter sido tomada, não por critérios sanitá- rios, mas sim por razões de natureza económica, designadamente para fazer trabalhar os aviões da Bristish Airways e da Ibéria, cujas companhias de avia- ção se fundiram em 2010 com a criação do Internacional Airways Group.

Seja como for, há um problema dentro da União Europeia, porque os Estados-membros deviam ter uma atitude de solidariedade e não de egoísmo nacional. Quem optou por esta última atitude certamente que a vai pagar no futuro, mesmo sem ter salvo a estação do verão, como se esperava perante a crise que existe e a que se anuncia ainda mais profunda.

Há pelo menos uma coisa que é certa. Portugal é um país seguro para passar férias. E apesar de haver agora alguns surtos em algumas freguesias de concelhos periféricos da área metropolitana de Lisboa, é preciso considerar também que os casos identificados estão isolados e a cadeia de transmissão seguida, como sempre acontece nestas situações. Portugal esteve bem no início do combate à pandemia e continua agora a estar bem, atacando logo os surtos onde existem, fazendo muita testagem e tendo uma política de transparência na divulgação da informação sobre o covid-19, o que não se pode dizer de vários outros países. E está de braços abertos para receber os nossos compatriotas e os cidadãos estrangeiros que nos queiram visitar, na certeza de que não haverá encerramento de fronteiras nem restrições adicionais. É sobretudo esta a mensagem que os nossos compatriotas devem reter.

Portanto, além dos caprichos um pouco irref letidos de vários Estados- -membros da União Europeia, interessa ainda combater o verdadeiro f lagelo da desinformação, das notícias falsas e da perceção errada que frequentemente existe nas nossas comunidades sobre a situação em Portugal, num contexto em que a imprensa dá notí- cias de forma obsessiva e, não raras vezes, também sensacionalista e pouco ponderada. Talvez esta imprensa não sabia, mas está a causar grandes perturbações nos nossos compatriotas residentes no estrangeiro e a levá-los a optar, em muito casos, por nem sequer virem de férias, privando-os assim de um direito, frustrando uma expetativa pessoal e contribuindo para o aprofundamento da crise económica do país.

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