Reino Unido: Polícia britânica ignorou os pedidos de socorro de Daniela até ao dia em que morreu

Daniela Espírito Santo ligou sete vezes à polícia antes de morrer a relatar a violência de que era vítima por parte do namorado.

No dia em que morreu, as autoridades de Grantham, Inglaterra, voltaram a considerar que o caso não era importante, até que a encontraram morta, em casa, com o filho nos braços. A portuguesa morreu no primeiro mês de confinamento e a sua história foi contada esta semana pelo “The New York Times”.

No dia 9 de abril de 2020, a Daniela, de 23 anos, que se mudou com a família para Inglaterra em 1999, voltou a denunciar o namorado por ameaças de morte e por a ter tentado estrangular. Nesse dia, pelas 9.48 horas, Julio Jesus prendeu-a na cama e pressionou o antebraço contra a sua garganta. “É isto?”, interrogou a jovem, segundo o relatório policial citado pelo jornal norte-americano, que divulgou o caso por estes dias. “É desta vez que me matas?”.

Júlio foi detido, mas libertado rapidamente, regressando depois ao apartamento, onde voltou a agredir a companheira, de acordo com uma segunda denúncia à polícia. Daniela disse que já tinha “perdido a conta” de quantas vezes o namorado a tinha agredido, muitas vezes chegando ao ponto de a estrangular de tal forma que ela não conseguia respirar. Noutras alturas, Júlio atirava-a contra a mobília e Daniela temia que ele a pudesse matar.

Porém, a situação foi considerada “não urgente”, uma vez que o homem já se tinha ido embora. Uma hora depois, Daniela foi encontrada morta no sofá de casa com o filho de sete meses a gritar num dos seus braços. A causa: insuficiência cardíaca.

A última vez que Daniela ligou à polícia era a sétima num período de um ano. A primeira aconteceu em 19 de maio de 2019, quando a jovem estava grávida do seu segundo filho. Nesse dia, a portuguesa contou às autoridades que Júlio tinha ameaçado matá-la e que era controlador e “excessivamente ciumento”. Mas não quis apresentar queixa. Foi o início de um padrão que só terminou um ano depois, a 9 de abril de 2020, com a morte de Daniela.

A jovem chamou a polícia mais três vezes nos meses seguintes. Na quarta chamada, em 6 de novembro, afirmou que Júlio a tinha empurrado, “agarrado o queixo e virado a sua cabeça enquanto segurava o seu braço”. Para se defender, Daniela mordeu-lhe a bochecha. Segundo o jornal, depois do incidente, um polícia “deu conselhos a ambas as partes”.

A 29 de dezembro, a jovem fez o seu quinto telefonema, acusando Júlio de, no dia de Natal, se ter “chegado à sua cara e a ter agarrado com tanta força que ela mal conseguia respirar”. No dia seguinte, o homem atirou-a contra a parede. Dois polícias foram ao local, mas, devido à falta de pessoal, chegaram quase quatro horas depois. Segundo as autoridades, o casal tinha “problemas de comunicação”, mas o polícia-chefe “não estava preocupado”.

Charly Price-Wallace, amiga de infância da jovem, contou ao “The New York Times” que Daniela lhe confidenciou os seus problemas, como o facto de Júlio lhe ter esvaziado a conta bancária para comprar drogas, logo após o nascimento da filha. Além disso, uma certa vez, o homem espancou Daniela depois de ela o ter confrontado, deixando-a com “um enorme olho roxo”. “A maior parte da violência surgia por ele usar o dinheiro para comprar drogas e por ser questionado posteriormente por ela”, explicou Price-Wallace.

Inicialmente acusado de homicídio doloso, Júlio, então com 30 anos, acabou por ser condenado a apenas dez meses de prisão. O Ministério Público da Coroa, o procurador público nacional, retirou a acusação devido a um problema cardíaco de Daniela. Em 2015, a portuguesa foi diagnosticada com uma inflamação do coração.

A autópsia concluiu que os ataques podem ter causado a insuficiência cardíaca que a matou, mas os procuradores decidiram retirar a acusação mais gravosa depois de um cardiologista ter argumentado que, embora a agressão pudesse ter causado a insuficiência cardíaca, uma discussão verbal também poderia. No entanto, Daniela denunciou uma agressão, não uma discussão. Júlio foi condenado por duas acusações de agressão grave, tendo já cumprido a pena e saído da prisão em março deste ano.

Segundo o “The New York Times”, Daniela foi uma de 16 mulheres que morreram em possíveis homicídios domésticos durante o primeiro mês de confinamento do Reino Unido. Em 5 de julho deste ano, no que seria o seu 25.º aniversário, a sua mãe e mais duas dezenas de pessoas espalharam as suas cinzas no seu local favorito, um lago no interior de Lincolnshire.

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